Kit da Put...: Publicidade em Odontologia


Kit da Put...: Publicidade em Odontologia
Gilberto Paiva de Carvalho em 04/11/2006

        Kit da Put.... Isso mesmo! Kit da Put.... A publicidade é famosa por apresentar audácia na forma de veicular uma informação cujo objetivo é atingir o cliente. Um slogan bem montado é a alma da propaganda: “a gente se vê por aqui!”, “... mil e uma utilidades!”, “..., a que desce redondo!”. Com tais lemas, como não lembrar a origem? Mas, Kit da Put...? Bem, se fosse uma publicidade qualquer, tudo bem, seria apenas mais uma propaganda de mau gosto. Entretanto, o Kit da Put... inclui um aparelho dentário. Sim, um aparelho ortodôntico que foi sorteado às altas horas, já na madrugada, após muito forró e ingestão indiscriminada de todos os tipos de bebidas alcoólicas permitidas legalmente e provavelmente, outros itens ilegais.

O presente artigo tem o objetivo de demonstrar um tipo de publicidade que não deve ser veiculada envolvendo o cirurgião-dentista ou a Odontologia. O Kit da Put... continha um aparelho dentário (ortodôntico), um celular e uma motocicleta Biz. Grande destaque para a motocicleta! “1 BIZ”. A saúde bucal vale menos que uma motoca. A referida propaganda foi exposta em outdoors pela cidade em pontos estratégicos, entre os quais um entroncamento de duas grandes avenidas de alto tráfego e outro na frente do hospital geral da capital.

Um kit é um aglomerado de materiais assemelhados ou não, reunidos em uma só porção que tem como destinatário final o cliente. Temos assim um kit das mães (café da manhã), um kit dos namorados (sabonete, colônia e outros), um kit natal (farofa, castanha, uva passa e quem sabe, um vinho), um kit odontológico (escova, creme e fio dental e um chaveiro com o nome da clínica), entre tantos outros. Grande idéia teve o “publicitário”! “Podemos oferecer um kit para put...s! O que oferecer para uma put...?” Reluz novo relâmpago genial: “um aparelho ortodôntico”. Entraram em contato com o cirurgião-dentista e provavelmente, este, sem arrazoar, de pronto concordou, com uma ressalva: “O meu Conselho Regional de Odontologia proíbe dar de graça aparelhos ortodônticos, pois nos jornais, as propagandas desse tipo foram suspensas por solicitação do CRO. Portanto, inclua apenas aparelho dentário. Viu?”

As conseqüências de um bom slogan é que ele será lembrado. Efeito de igual teor é gerado com slogans deploráveis. Toda a causa produz um efeito. Cria-se, assim, um nexo de causalidade entre a propaganda e o objeto a ser lembrado. A prostituição em nossa sociedade é vista como algo deplorável. A cultura latinoamericana com raízes católicas está longe de aceitar a prostituição como uma profissão qualquer, que uma prostituta tenha carteira assinada e possa aposentar-se, como ocorre em alguns países da Europa. Assim, a put... transmite uma informação que denigre a imagem humana. Inferir, coligir, deduzir, induzir, entender, concluir significa para o caso em questão que o aparelho ortodôntico no Kit da Put... é coisa de menor valor e que a Odontologia está no mesmo nível degradante da put....

A prostituição da Odontologia deve ser evitada. Muitas formas de apresentar seu serviço e aumentar a lista de clientes estão dispostas nas mais diversas maneiras de publicidade. É dispensável ao cirurgião-dentista cursar um MBA em marketing para organizar sua publicidade, mas é imprescindível que ele saiba orientar quem irá fazê-la de modo compatível com as normas éticas <INCLUIR LINK> determinadas pelo Conselho Federal. Indica-se saber que existe e que precisa ser seguida. Prima-se tê-la à mão para consultas.

O Conselho Regional de Odontologia de Roraima, assim como fez com as publicidades veiculadas em jornais, proibindo a informação de “aparelho gratuito”, coíbe os sorteios de aparelhos dentários – geralmente ortodônticos - e está investigando o profissional que forneceu o aparelho para o sorteio. Ressalta-se, também, que a Odontologia não vende produtos e sim, serviços. O consultório odontológico não é um balcão de mercearia ou uma loja de venda de aparelhos celulares. O cirurgião-dentista não pode vender um arco, ou um braquete, um “apertinho” no aparelho ou uma “l i m p e z i n h a”! A relação de consumo é realizada mediante a prestação de um serviço: o odontológico. E esse serviço prevê um plano de tratamento e emprego correto dos conhecimentos técnico-científicos a favor dos clientes.

Provavelmente, muitos estão olhando o mapa nacional para localizar este estado tão distante de tudo. Alguns poderiam inferir que a distância dos grandes centros aumenta a desinformação sobre a publicidade em Odontologia. No entanto, esse é um problema nacional: a incompetência do cirurgião-dentista em montar sua publicidade e tentativa de, a qualquer custo, conseguir mais clientes em sua agenda. Em São Paulo, uma raspadinha oferecia, entre os prêmios, um aparelho ortodôntico ou um caixão. O cirurgião-dentista havia feito um negócio no qual envolvia uma funerária. A Odontologia mais perto do fim da vida.

As mazelas da publicidade em Odontologia são muitas. Há como atingir a população-alvo por meio de publicidades simples, baratas e que respeitem as normas éticas. O Conselho Federal de Odontologia alterou o capítulo XIV – Da Comunicação - do Código de Ética Odontológica (BRASIL - CFO, 2006) por meio da Resolução CFO – 071. Basta consultá-lo no site do CFO <LINK> ou diretamente neste link. E quem foi sorteado no concurso? Uma moça. Será que ela se considera uma put...?

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